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O que sabemos (e não sabemos) sobre como perder peso

Novo estudo mostra que dietas de baixa gordura e de baixo carboidrato são equivalentes.

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Publicado em: 03 de abril de 2018

A lista interminável de dietas que prometem ajudar pessoas a perder peso tende a se dividir em dois campos: reduzir os carboidratos ou reduzir o consumo de gordura. Algumas empresas chegam a afirmar que a genética pode nos dizer qual dieta seria melhor para quais pessoas. Um estudo recente e rigoroso tentou resolver o debate de uma vez por todas, e os resultados que encontrou podem desapontar os dois campos. Do lado positivo, pessoas conseguiram perder peso independentemente da dieta que seguiram. Vale a pena considerar o estudo com mais atenção, para descobrir o que ele foi capaz de provar e o que ainda não foi provado.

Pesquisadores da Universidade Stanford (EUA) reuniram um grupo de mais de 600 pessoas com idades variando de 18 a 50 anos e índice de corporal de 28 a 40 (25 a 30 significa excesso de peso, e acima de 30, obesidade).

Os participantes do estudo foram selecionados de modo que não tivessem outros problemas de saúde que não o sobrepeso. Eles foram então designados aleatoriamente para seguir uma dieta saudável com baixo teor de gorduras ou uma dieta saudável com baixo nível de carboidratos.

As pessoas alteraram suas dietas de acordo com os grupos para os quais foram designadas. Os participantes que ficaram no grupo de baixo consumo de gordura extraíram em média 29% de suas calorias de gorduras, ante 45% no caso dos integrantes do grupo de baixo carboidrato. No grupo do baixo carboidrato, as pessoas obtiveram em média 30% de suas calorias de carboidratos, ante 48% para as pessoas no grupo de baixa gordura.

No entanto, a perda média de peso não variou significativamente entre os dois grupos. Ao fim de 12 meses, o grupo do baixo carboidrato havia perdido em média cerca de seis quilos, ante 5,2 quilos para o grupo da baixa gordura. A diferença não é estatisticamente relevante.

A sensibilidade à insulina não fez diferença. O volume de insulina secretado não afetou a perda de peso dos participantes, tanto em geral quanto nos dois grupos especificamente. A genética tampouco parece ter influenciado o resultado. Pessoas que tinham genes que pareciam indicar que elas se sairiam melhor com uma ou outra das dietas não apresentaram resultados diferentes da média.

Na verdade, se considerarmos como cada participante individual do estudo se saiu com a dieta que lhe foi designada, o mais notável é que as duas dietas apresentaram curva quase idêntica de respostas — de muito peso perdido a um pouco de peso ganho. As constatações não se aplicam apenas aos resultados médios.

CONSTATAÇÕES

Alguns observadores acreditam que o estudo tenha provado que evitar comida industrializada, consumir mais alimentos integrais e cozinhar em casa produz perda de peso. Eu certamente gostaria de acreditar que é esse o caso, mas não foi esse resultado que o estudo mostrou. Ainda que todos os participantes tenham recebido os mesmos conselhos, não havia grupo controle formado por pessoas que não os tenham recebido, e assim não há como extrair conclusões sobre a eficácia dessas instruções.

Outras pessoas entenderam o estudo como um contraexemplo da ideia de que contar calorias seja essencial para a perda de peso. Embora esse não fosse o tema central do estudo, e tampouco constasse das instruções aos participantes, eles reduziram o valor calórico de sua alimentação em cerca de 500 a 600 calorias por dia (ainda que não as contassem.) O estudo não prova que contar calorias seja desimportante.

Os pesquisadores também pediram a todos os participantes, não só aos do grupo de baixo carboidrato, que evitassem “açúcar adicionado”. Portanto, não podemos dizer coisa alguma de novo sobre uma correlação entre açúcares adicionados e perda de peso.

O que o estudo demonstra é que pessoas que apostaram na superioridade de um tipo de dieta sobre o outro não têm argumentos tão fortes quanto imaginam. É notável o quanto o desempenho entre os dois tipos de dieta foi semelhante, mesmo em nível individual.

Isso nos mostra que as muitas pessoas, e os muitos estudos, que sugerem que podemos decidir qual é a melhor dieta para alguém, com base na genética ou nível de insulina, tampouco estão certos.

Quase todos os estudos que sustentam essas ideias foram menores, mais curtos ou menos robustos em sua concepção de que a pesquisa em questão. No futuro, claro, pode ser descoberto um gene que faça diferença, mas quem acredita que ele já tenha sido encontrado deveria moderar seu entusiasmo.

O foco do estudo estava principalmente em pessoas obesas. Por isso pessoas que desejam perder só alguns quilos talvez possam se beneficiar mais de uma ou da outra dieta; não sabemos. Vale apontar que os participantes do estudo receberam apoio significativo para ambas as dietas, e por isso os resultados vistos nele podem não se aplicar a quem esteja tentando perder peso sozinho.

É preciso cautela quando alguém diz que sabe qual é a dieta ideal para você, ou que existe um teste capaz de identificá-la.

As dietas bem-sucedidas em longo prazo provavelmente são aquelas que envolvem mudanças lentas, mas firmes na alimentação. A abordagem mais simples é reduzir o consumo de alimentos industrializados, pensar nas calorias daquilo que você está bebendo e tentar não comer mais do que você pretendia.

O resumo é que a melhor dieta para você é aquela que você consegue seguir. Ninguém sabe melhor que você qual deve ser essa dieta. E o mais provável é que precise descobri-la sozinho.

COMO FOI O ESTUDO
1) Os pesquisadores reuniram um grupo de mais de 600 pessoas com idade variando de 18 a 50 anos

2) O IMC (índice de massa corpórea) dos participantes foi de 28 a 40 (25 a 30 significa excesso de peso, e acima de 30, obesidade). Os selecionados não poderiam ter outros problemas de saúde que não o sobrepeso

3) Eles foram designados aleatoriamente para seguir uma dieta saudável com baixo teor de gorduras ou uma dieta saudável com baixo teor de carboidratos

4) Os participantes compareceram a 22 sessões de instrução, em grupos de cerca de 17 pessoas, realizadas ao longo de um ano. As sessões inicialmente eram realizadas a cada semana, e depois passaram a acontecer em intervalos maiores

5) Todos foram encorajados, nas primeiras oito semanas, a reduzir em 20 gramas por dia seu consumo da categoria de nutriente enfocada por sua dieta

6) Depois desse período eles podiam voltar a acrescentar gorduras ou carboidratos às suas dietas até que atingissem o volume mínimo de consumo que acreditavam poder manter em longo prazo

7) Eles foram acompanhados por um ano e foram encorajados a elevar o consumo de legumes e verduras, diminuir o uso de açúcar e farinha refinada e a privilegiar alimentos integrais pouco processados, além de cozinhar em casa

8) Dados foram recolhidos no início do estudo, no sexto mês e ao fim de um ano. Os pesquisadores testaram os participantes sem aviso em três ocasiões diferentes, ao longo do período, para determinar se estavam seguindo as instruções

RESULTADO
A perda média de peso não variou significativamente entre os dois grupos. Ao fim de 12 meses, o grupo do baixo carboidrato havia perdido em média cerca de seis quilos, ante 5,2 quilos para o grupo da baixa gordura. A diferença não é estatisticamente relevante.


Fonte: Folha