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Obesidade entorpece o paladar, sugere estudo

Camundongos obesos têm, em média, 25% menos papilas gustativas do que ratos magros

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Publicado em: 26 de março de 2018

Estudos anteriores indicaram que o ganho de peso pode reduzir a sensibilidade ao gosto da comida, e que esse efeito pode ser revertido quando o peso extra é perdido. Porém, ainda não estava claro como esse fenômeno ocorre. Um estudo publicado terça-feira (20) na revista científica PLoS, de autoria de Andrew Kaufman, Robin Dando e seus colegas da Universidade Cornell, mostra que uma inflamação causada pela obesidade reduz o número de papilas gustativas na língua de camundongos.

Uma papila gustativa possui aproximadamente de 50 a 100 células, divididas entre três tipos principais. Cada um deles desempenha papéis diferentes para sentir os cinco gostos primários (salgado, doce, amargo, azedo e umami). A renovação das células das papilas gustativas é rápida; sua vida útil é de no máximo 10 dias. Para explorar diferenças nas papilas gustativas de obesos, os autores alimentaram camundongos com duas dietas, sendo uma classificada como dieta normal, contendo 14% de gordura, e a outra como obesogênica, com 58% de gordura. Sem grandes surpresas, depois de 8 semanas, os camundongos alimentados com uma dieta obesogênica pesavam por volta de um terço a mais do que aqueles que recebiam a comida normal. Mas, surpreendentemente, os ratos obesos tinham 25% menos papilas gustativas em relação aos ratos magros, sem que mudasse o tamanho médio ou a distribuição dos três tipos de células nas papilas individuais.

A renovação das papilas gustativas normalmente decorre de uma combinação equilibrada entre a morte celular programada (um processo conhecido como apoptose) e a geração de novas células a partir de células progenitoras especiais. No entanto, os pesquisadores observaram que a taxa de apoptose aumentou nos camundongos obesos, enquanto o número de células progenitoras de papilas gustativas diminuiu, provavelmente explicando o declínio líquido no número de papilas gustativas. Camundongos geneticamente desenhados para terem resistência a desenvolver a obesidade não apresentaram estes efeitos, mesmo quando alimentados com uma dieta rica em gordura. Isto sugere que o fenômeno não ocorre devido ao consumo de gordura per se, mas sim devido à acumulação de tecido adiposo.

A obesidade é associada a estados crônicos de inflamação de baixo grau, e o tecido adiposo produz citocinas pró-inflamatórias - moléculas que funcionam como um sinal entre as células - incluindo uma chamada TNF-alpha. Os autores descobriram que uma dieta rica em gorduras aumenta o nível de TNF-alpha ao redor das papilas gustativas; no entanto, camundongos geneticamente incapazes de produzir TNF-alpha não tiveram redução nas papilas, apesar de ganharem peso. Por outro lado, ao injetar TNF-alpha diretamente na língua dos ratos magros, verificou-se uma redução das papilas gustativas, apesar do baixo nível de gordura corporal.

“Esses dados em conjunto sugerem que a adiposidade decorrente da exposição crônica a uma dieta rica em gordura é associada a uma resposta inflamatória de baixo grau que causa uma ruptura nos mecanismos de equilíbrio da manutenção e renovação das papilas gustativas”, diz Dando. “Esse resultado pode trazer novas estratégias terapêuticas para aliviar a disfunção do paladar em populações obesas.”

Fonte: Scientific American