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Obesidade infantil: saiba como diminuir o risco da doença no seu filho

A Organização Mundial da Saúde estima que, em 2025, 75 milhões de crianças no mundo serão obesas. Confira 9 fatores que influenciam diretamente nos ponteiros da balança.

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Publicado em: 27 de maio de 2019

Que o Brasil e o universo estão ficando mais obesos, não há dúvida. E o que mais preocupa os especialistas é o crescente avanço da epidemia mundial de obesidade, principalmente entre as crianças. Para se ter uma ideia, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), na década de 70, a doença afetava 0,93% dos meninos e 1,01% das meninas até 5 anos. Um estudo recente, realizado pelo Imperial College, de Londres (Inglaterra), em parceria com a OMS, no Brasil, hoje, ela acomete 9,4% das garotas e 12,7% dos garotos. Essa pesquisa global comparou informações sobre o peso de mais de 130 milhões de pessoas, em 200 países.

As más notícias em forma de números não param por aí: a OMS estima que em 2025, portanto, daqui a pouco tempo, haverá 75 milhões de crianças obesas no planeta – praticamente a população inteira da França. Os estudiosos do assunto acreditam que, dessas, 427 mil terão complicações como pré-diabetes; 1 milhão sofrerá de hipertensão arterial; e 1,4 milhão será vítima do acúmulo de gordura no fígado, problema grave que costuma acompanhar o excesso de peso e pode evoluir para casos de hepatite gordurosa, cirrose hepática e até câncer.

O cenário é preocupante, mas não há motivo para pânico. Sabe por quê? Porque existem providências – simples – que podem ser tomadas para evitar a obesidade. E elas estão nas nossas mãos. Antes de mais nada, é preciso se conscientizar de que o excesso de peso é uma questão séria. Não dá para se enganar. Se o seu filho é mais rechonchudo, não adianta pensar que ele está saudável assim, fofo, e que, quando crescer e “esticar”, vai emagrecer. Estudos comprovam que uma criança obesa tem muito mais chances de se tornar um adulto obeso.

“Entre as explicações está o fato de ela ter um número maior de células de gordura no corpo – essas células vão acompanhá-la pela vida toda. Como se não bastasse, há o fator hormonal envolvido na regulação da fome: os hormônios insulina e leptina são os principais responsáveis por enviar ao cérebro a mensagem de que há estoque de gordura no corpo. O problema é que, em obesos, esses hormônios não funcionam como deveriam. Resultado? O cérebro não entende que já há energia/gordura acumuladas e responde com mais fome”, explica a endocrinologista Cíntia Cercato, presidente do 28° Congresso Brasileiro de Obesidade e Síndrome Metabólica, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

Além do papel dos hormônios, outro fator que aumenta o risco de obesidade nos pequenos, talvez o mais determinante, tem a ver com hábitos – sim, sempre eles. “Alimentação inadequada e sedentarismo que começam na infância tendem a continuar no futuro”, afirma a endocrinologista Jacqueline Rizzolli, membro da diretoria da Abeso.

No Brasil, assim como em outros países onde a obesidade disparou nos últimos anos, o excesso de peso está relacionado, sobretudo, ao maior consumo de produtos industrializados – ricos em açúcar e gordura. Diminuir a ingestão desses alimentos já seria um avanço no combate à doença, mas vale lembrar que se trata de um problema multifatorial, que não se resume apenas à comida. “Quando se fala em risco de obesidade, a genética responde por cerca de 30%. Os outros 70% vão depender de hábitos de vida, por exemplo, se a criança faz atividade física. Até a composição da flora intestinal importa, já que ela interfere em como o organismo estoca a gordura. Uma alimentação saudável compõe uma microbiota intestinal [conjunto de microrganismos que participam de vários processos, como a digestão] mais favorável a acumular menos gordura”, diz Jacqueline.

A obesidade também é um problema que passa por políticas públicas, pois inclui, desde a forma como se permite fazer propaganda dos alimentos, passando pela regulamentação de produtos processados, com alto teor de açúcar e gordura, até o cardápio das escolas. Tudo isso pode influenciar, e muito, a saúde dos pequenos. Prova disso é o que aconteceu no Chile. Com a disparada da doença, o governo implementou, há cinco anos, um imposto maior sobre bebidas açucaradas. E, em 2016, passou a restringir a publicidade de produtos alimentícios voltados ao público infantil. Surtiu efeito. Segundo estimativa dos pesquisadores da Universidade do Chile, o consumo de sucos açucarados caiu cerca de 24%.

Por aqui, o Ministério da Saúde divulgou, em novembro passado, um acordo com a indústria de alimentos e bebidas para reduzir o teor de açúcar de bolos, biscoitos, achocolatados e produtos lácteos. A meta é retirar 144 mil toneladas do ingrediente desses produtos nos próximos quatro anos.

Além de acompanhar o que governo e outras instituições podem fazer para combater a obesidade, há uma série de ações que você pode colocar em prática no dia a dia da sua família. Elas serão úteis para diminuir o risco da doença na sua casa. A seguir, veja algumas delas:

O poderoso leite materno

Criança que mama no peito tem menos risco de sofrer com sobrepeso e obesidade no futuro. Foi o que mostrou uma revisão de 113 estudos feita pela Universidade Federal de Pelotas (RS), publicada no periódico britânico Scientifc Reports, em 2018. As 3.700 pessoas que participaram da pesquisa (elas receberam leite materno) foram acompanhadas do nascimento aos 30 anos. Ao longo desse período, a avaliação observou um maior índice de massa magra e menos espessura de gordura visceral, a que fica acumulada nas camadas profundas do abdômen e são mais perigosas. O professor do programa de pós-graduação em epidemiologia da instituição, Bernardo Horta, que conduziu a pesquisa, explica o resultado: “A amamentação influi em um gene ligado à saciedade. Crianças amamentadas têm um senso de saciedade mais desenvolvido. Além da questão química em si, o bebê que mama no peito é quem controla o volume do que ingere, e ele aprende com essa experiência”, diz.

Outro benefício da amamentação tem a ver com o próprio leite, como explica Elsa Gugliani, presidente do departamento de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria: “Sua composição tem vários tipos de gorduras que interagem com hormônios e proteínas, e isso influencia o metabolismo da criança, ajudando na prevenção da obesidade”.

Bom exemplo

Os pais têm papel fundamental na luta contra os quilos extras, uma vez que são os responsáveis pelo que entra na despensa, por incentivar a prática de exercícios, e claro, por notar quando tem algo errado em relação ao peso do filho. Por outro lado, segundo Jacqueline Rizzolli, “também falta, em alguns casos, a conscientização dos próprios profissionais de saúde que, por vezes, não tratam o sobrepeso como um fator de risco”. Foi o que aconteceu com Juliana, 8, filha da designer de festas Patrícia Engrácia, 38. A mãe questionou o pediatra sobre o excesso de peso da criança, mas foi ignorada. A situação mudou quando ela procurou outro profissional. “A médica pediu exames e descobrimos que a Juliana estava com altos índices de colesterol e triglicérides”, diz.

Patrícia conta que, apesar de não haver nenhum obeso na família, os hábitos alimentares em casa contribuíram para que o ponteiro da balança disparasse. Após o diagnóstico da filha, todos começaram uma reeducação alimentar. “Passamos a seguir a regra ‘descasque mais, desembrulhe menos’. Assim, tiramos boa parte da comida industrializada do cardápio”, diz. O resultado? Juliana emagreceu 8 kg em cerca de dois anos e meio, e saiu da faixa da obesidade. De quebra, Patrícia e o marido também ficaram 8 kg mais leves. Uma mostra de que a mudança de hábito deve se estender a todos.

Sempre na medida certa

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda a amamentação exclusiva até os 6 meses, e a complementar até os 2 anos ou mais. No entanto, quando o aleitamento não é possível, entram em cena as fórmulas, que contam com nutrientes semelhantes aos do leite materno. É aqui que cabe uma ressalva: se a indicação da fórmula por faixa etária e a dosagem forem respeitadas, haverá equilíbrio na alimentação. Já se os pais invocam que a bebida está rala e adicionam mais pó, tudo muda. “A diluição com mais ou menos água altera a proporção nutricional do leite”, diz o pediatra e nutrólogo Mauro Fisberg, professor associado da Escola Paulista de Medicina (Unifesp), e coordenador do Centro de Nutrologia e Dificuldades Alimentares do Instituto Pensi, do Hospital Infantil Sabará (SP).

Outro mau hábito que interfere na qualidade da alimentação infantil é encorpar mamadeiras com “engrossantes”. Isso não ajuda em nada em termos nutricionais.

De olho no açúcar

Na introdução alimentar, a partir dos 6 meses, é comum o bebê começar a tomar suco de frutas. No entanto, é preciso ter cuidado. O Guia Alimentar para Crianças e Menores de 2 anos, do Ministério da Saúde, traz, em sua versão atualizada, a orientação de que não se deve oferecer essa bebida antes do primeiro ano. Isso porque um copo de suco (200 ml) contém uma vez e meia mais açúcar do que uma unidade da fruta. “Por mais de 30 anos, recomendamos dar suco de frutas a partir dos 6 meses, mas, nesse cenário em que a obesidade só cresce, foi necessário rever”, diz a nutricionista Adriana Sevilha Gandolfo, coordenadora clínica do Instituto da Criança (FMUSP).

E se é preciso ficar atento até ao açúcar vindo das frutas, imagine em relação ao industrializado. Este nunca deve ser oferecido antes dos 2 anos. Uma revisão de 30 pesquisas sobre efeitos de bebidas açucaradas, como refrigerantes e achocolatados, publicada na revista científica Obesity Facts, apontou que em 93% dos estudos avaliados havia relação direta entre o consumo de açúcar e os quilos extras. “Quanto mais doces a criança comer, mais irá desenvolver o paladar para eles”, diz Fisberg. “Vale lembrar que ninguém é obeso por causa de um único alimento”, completa. Bem notado: na lista do que deve ser evitado, além do açúcar, estão enlatados, salgadinhos e frituras.

A percepção dos alimentos

Do nascimento até completar 1 ano, o bebê triplica de peso e, geralmente, tem bom apetite. Aí mora o perigo: sem ter noção de quantidade, é comum oferecer cada vez mais comida à criança, mesmo que ela esteja satisfeita. “Foi-se o tempo em que o indicador de saciedade era raspar o prato. Se o pequeno não quiser comer, não force. É ele que deve dar o sinal de que quer mais ou menos comida”, diz a nutricionista Adriana.

Outro fator que ajuda a controlar o risco de obesidade infantil é facilitar o caminho para que a criança se familiarize com os alimentos. “A variedade de sabores e texturas a que tem acesso pode ser um protetor contra a doença, porque ela passa a comer itens diferentes”, afirma Mauro Fisberg.

Uma força para o apetite?

Muitos pais ficam extremamente preocupados quando acham que o filho não come. E correm aos consultórios em busca de vitaminas para abrir o apetite. Alto lá: a coisa não é bem assim. Vitaminas não têm o poder de despertar a fome. “A vontade de comer é resultado de uma melhora geral do organismo e do estado nutricional”, diz Fisberg. Assim como os medicamentos, elas devem ser usadas apenas sob recomendação médica.

Corpo em movimento

Não tem escapatória: uma vida saudável, que passa longe do risco de obesidade, precisa incluir atividade física. Por isso, pular corda, brincar de pega-pega, jogar bola, andar de bicicleta... são apenas algumas das alternativas para que seu filho entre na brincadeira de mexer o corpo. Além de contribuir para o desenvolvimento e a socialização do pequeno, essas atividades trazem benefícios à saúde. O controle do peso é um deles. “Se a atividade física passar a fazer parte da rotina, a criança se sentirá motivada a se mexer mais. Isso cria um hábito e garante que ela não o abandone com facilidade”, diz a endocrinologista Jacqueline.

Sono X quilos extras

Crianças que dormem menos do que o recomendado para a idade tendem a acumular quilos a mais. A conclusão é de uma pesquisa realizada pela Universidade de Warwick, no Reino Unido. O trabalho é resultado de uma revisão que incluiu 42 estudos com 75.499 participantes de 0 a 18 anos. Em todas as faixas etárias, os que tinham um período de descanso mais curto ganharam maior peso e apresentaram 58% mais propensão ao sobrepeso e à obesidade.

No estudo, foram levadas em conta as diretrizes atuais da Fundação Nacional do Sono (EUA), que divide a necessidade de horas de sono das crianças por faixa etária: entre 4 e 11 meses, de 12 a 15 horas de sono; de 1 a 2 anos, de 11 a 14 horas; dos 3 aos 5 anos, de 10 a 13 horas; e dos 6 aos 13, de 9 a 11 horas. “Se a criança não tem esse tempo respeitado, vai ficar mais cansada. E o corpo tende a interpretar que precisa armazenar energia, piorando a queima calórica – daí o ganho de peso”, diz Jacqueline Rizzolli.

O papel das emoções

É inegável: elas estão muito ligadas às oscilações de peso, sim! Na criança, seus reflexos são bem importantes. Casos de estresse como luto, separação dos pais, troca de escola ou grandes perdas, como morte de alguém da família, de um amigo ou até de um animal de estimação, por exemplo, podem provocar a busca de conforto emocional na comida. E as que dão maior sensação de prazer são as mais calóricas. “Quando situações desse tipo acontecem, todos na família ficam abalados e se tornam mais permissivos, liberando as guloseimas”, diz a endocrinologista Jacqueline. “Dependendo do caso, é recomendado recorrer a uma equipe multidisciplinar, que inclui psicólogo, para ajudar o pequeno”, completa.

Nesse e em qualquer outro cenário em que a comida entra em cena sem que se dê muita atenção a ela, vale um alerta: todo cuidado é pouco em relação à qualidade e quantidade do que seu filho ingere. Os riscos para a obesidade estão aí, todos os dias, rondando a nossa vida. É preciso discernimento, critério e força para não abrir a porta para eles.

Fonte: Revista Crescer
Edição: F.C.